segunda-feira, 9 de abril de 2012

Pedras

O quilômetro 1167 é atrevessado por um pequeno riacho cujo os habitantes mais próximos sequer têm curiosidade onde começa ou termina. E há muitos, muitos anos atrás, quando o primeiro ser humano pensou em dar a sua primeira cagada, uma força sobrehumana se adiantou e concedeu o sopro da  vida a dois seres. E o pior, lhes deu inteligência.
— Onde será que eles vão quando passam por aqui montados naquela coisa Bert?
— Eu diria que eles vão para a borda do mundo e caem no negrume do abismo. Ô.
— Será?
— Pode apostar que sim! Que aquele cachorro amarelo da fazenda mije em mim se não for isso. E tem mais, aquela “coisa” chama-se bicicleta.
— E eu sou um toco cheio de cupim. Bici... bi... Que nome estranho. Aposto que você está inventando isso só porque deu a sorte de vir rolando mais cedo do barranco pra estrada.
— O que tem haver uma coisa com a outra?
— Oras, se você desceu o barranco mais cedo até a estrada, é sinal de que viu mais deles do que nossos irmãos.
— Irmãos? Olhe ao seu redor. Ta todo mundo morto Rocha. Eu não chamaria nada nem ninguém aqui de irmão exceto você.
— Obrigado. Isso é consolador.
— Não precisa se ofender. O fato é que antes eles usavam mais cavalos por aqui. Dessa época você deve se lembrar. Até morreu um lá na frente se lembra?
— Claro que me lembro! O coitado ficou lá estirado que nem um animal olhando pra gente com aquele olhão todo branco apavorado, ai aquele baixinho puxou o gatilho e espalhou sangue pra tudo quanto é lado. E o barulhão que fez? Sonhei um tempão com aquele barulho.
— Poisé.
— Poisé.
— E então?
— O quê?
— Você ainda quer ser um toco cheio de cupim? Porque aquilo era uma bicicleta.
— Mentira. É sério?
— Pois pode acreditar.
— Aquilo vai contra a lógica Bert. Por que é que eles giram as pernas o tempo todo naquela coisa se o cavalo já faz tudo sozinho? Mexe as pernas, carrega o dono e larga merda na estrada?
— Vinha pensando nisso ultimamente. Provavelmente eles venham brigando há algum tempo.  
— Quanto tempo?
— Não muito. Todo mundo briga sabe.
— Faz sentido. Aquele baixinho parecia bem nervoso quando gritava “Levanta CARAJO!”.
— Acho que o dia que você gritar assim comigo eu saio rolando daqui.
— Eu também sairia. Ainda mais com dois velhacos que nem a gente. Vai ficando difícil perdoar. Pior, vai ficando mais fácil se ofender.
— Você está no caminho certo Rocha. A gente perdoa, mas não esquece. E não passa um pouco e estamos nós a jogar tudo na cara um do outro igual aquela mulher da bicicleta.
— Bici.. Bicircle...
— Bicicleta, Rocha.
— Que seja! O que tinha a mulher?
— Não se lembra aquela vez que eles acenderam uma fogueira aqui perto umas 212 luas atrás?
— A mulher do GuGól Mapis você diz?
— Ela mesma. Lembra que ela estava falando sozinha com uma caixinha preta que chiava?
— Acho que sim.
— Pois então. Ela estava de bronca com a tal bicicleta. Ficava o tempo todo dizendo pra caixinha preta: “Furei o pneu nesse fim de mundo! Pera ai que vou consultar o Gugól Mapis”
— Ha ha ha.
— Que foi?
— Pneu. Que nome engraçado.
— É.
— É.
— E foi assim que ela brigou lá com a tal bicicleta xingando a caixinha preta e indo embora no dia seguinte.
— Sim, mas ela levou a bici... aquela coisa com ela.
— Aceite o que te digo: as bicicletas passam aqui com mais frequência do que gostaria de admitir. O problema é que você está sempre dormindo!
— Convenhamos que não há muito o que fazer por aqui Bert.
— Como não? Espiar os vizinhos oras!
— Só você mesmo. Me lembro de alguém aqui dizer que estava todo mundo morto agora a pouco.
— Metaforicamente eu quis dizer.
— Vou nem perguntar o que vem a ser o tal do “Meta-fornica-mente” em prol da nossa amizade.
— Faz bem. Por hora é melhor a gente se concentrar nas bicicletas.
— Porra mas tu é chato Bert. Tu parece uma pedra que não muda nunca de opinião.
— Rocha, eu sou uma pedra.
— É, mas dia desses você estava todo doutor dizendo que você era um aerolito. Custei muito pra aprender esse nome.
Depois de um longo silêncio de algumas luas...
— Vou dar uma mijada ali naquelas pedras João! – disse um dos ciclitas. — Já volto.
— Quer que eu seguro sua bike Bastita?
— Sim! – gritou.
Alguns minutos após a partida dos ciclitas...
— É Bert, tu não tem jeito. O nome é “bike batista”! Pelo menos você quase acertou sobre quem ia mijar em você.
— A cala a boca! Tinha certeza que era bicicleta! Escuta o que eu te digo, esse mundo tá acabando Rocha!
— Isso deve explicar porque todo mundo passa por aqui com essa pressa toda. Deve ser pra ver o final.
— É.
— É.
— E a gente vai ficar aqui? – perguntou Bert cortando o silêncio.
— E como iríamos? De “bike batista” não dá. De cavalo só o destino sabe quando um vai passar.
— Mas as montarias sempre vem com seus donos certo?
— Certo.
— Então a gente se enfia nas sapatos dos donos e viaja com eles.
— Bert...
— O quê?
— Tem certeza que o nome é sapatos?
— Absoluta! Esse não tem como errar! Eu quero que um boi cague em mim se não esse o nome!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um mal antigo

"Assim que a riqueza foi tomada por integridade e trouxe glória, imperium e poder, a virtude começou a se tornar aborrecida; pobreza era vista como desgraça, inocência, como malícia. E, então, por causa da riqueza, nossos jovens foram capturados pela luxúria, pela cobiça e pelo orgulho; eles roubaram e desperdiçaram dinheiro; calculando que a sua propriedade era de pequeno valor, invejaram o que era dos outros; desdenhosos da modéstia e da castidade, de tudo que é divino ou humano, eles não pensavam nem se controlavam."

                                                                                   O SENADOR E HISTORIADOR SALÚSTIO
                                                                                                     escrevendo no fim dos anos 40 a.C

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Música Maestro!



"Joined at the soul with a pair of headphones
We need nobody to let ourselves go
Always on my side as we rock a stage show
In an ocean of music we move with the flow
Her hand in my hand I don't wanna let go
A partner in life on this mean old road
We got the wind on our back that blows
We can't drift apart, we just move with the flow"

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Melhor técnica


Vou utilizá-la sempre. =D

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Primeira Postagem do Ano


“Se você olhou para o velocímetro então deixou de olhar para estrada”

Minha primeira postagem do ano de 2011 é a de um dia após o meu aniversário. Havia prometido que voltaria a escrever somente quando algo realmente bom acontecesse. Então vamos lá: 
  1. A crise existencial mais conhecida como Crise dos 30, veio para me fazer rir. Me disseram que alguns questionamentos viriam atormentar a minha alma, que a contabilidade da minha vida apresentaria alguns sofríveis números. Infelizmente essas pessoas erraram por alguns anos apenas. Um atraso de uns 5 anos mais ou menos. 
  2. Sai do grupo das piores estatísticas apresentadas nos telejornais. Não morri baleado, não me suicidei, não fiquei tetraplégico e agora minhas piadas sem graça ganham respaldo na idade.
  3. A porcaria do VASCO finalmente ganhou alguma coisa. Não me perguntem o que, mas eu senti uma energia diferente por ai. 
  4. Meu gosto musical está cada vez mais apurado. 
  5.   Minha tolerância atinge níveis estratosféricos. Não dou vivas as diferenças com o mesmo entusiasmo, porque esse povo é diferente demais! 
  6. Meu vocabulário melhorou um pouco. 
  7. Todo homem em algum ponto questiona sua própria fé. Eu resolvi ter uma.
Resolvi somar essas pequenas coisas com outras que já tenho conquistadas (que são de longe mais importantes que tudo isso) só para poder voltar a escrever aqui sem quebrar minhas promessas. Então é nesse tempinho que eu tiro os olhos da estrada pra registrar aqui a quantas anda essa vida louca.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma história que li

Certa vez havia um artesão, que mal tinha dinheiro para o próprio sustento. Para piorar, ele precisava manter sua avó à custa de caros remédios conseguidos apenas na capital. Amaldiçoava dia após dia sua sina, mas seguia invariavelmente com seu destino, sendo bom e amável com as pessoas. Vendia esteiras e cestas a preços módicos, e muitas vezes apiedava-se e presenteava as pessoas (muitas das quais não podiam pagar).
E qual era o seu destino?

— Seu destino é ter sempre dívidas para seguir trabalhando. - disse certa vez uma cigana sem nenhum assombro ao ler-lhe a mão.

Uma semana havia se passado. O comboio mercante que levava suas mercadorias fora atacado por ladrões e os remédios que já haviam sido pagos foram roubados juntamente com outros produtos. O inverno se aproximava, e o artesão mal sabia o que fazer. Não tinha lenha, muito menos comida estocada.
Até que no dia seguinte, ao trançar os cordames de uma cesta, notou que haviam três cestas que ele não havia feito. Correu até a porta do quarto de sua avó para brigar com ela. Afinal estava doente. Ao que ela disse:

— Você não vai acreditar! Um brownie esta a nos ajudar! Agora não seja burro, dê-lhe leite e aveia todos os dias. E jamais, jamais diga obrigado, entendeu?

Por estranho que fosse o artesão resolveu não fazer perguntas. Iniciou o dia feliz por ter mais mercadorias para vender. Conseguiu um dinheiro extra e com ele comprou leite e aveia. A noite deixou o prato no canto da casa e foi deitar-se. No dia seguinte o prato estava vazio e acima da mesa haviam mais 3 cestas! Aquilo era simplesmente incrível. Em um mês, ele conseguira enfrentar o duro inverno, com lenha, comida e remédios para sua avó. Na primavera contratou seu primeiro ajudante e no outono, dispunha de três ajudantes e arranjara uma noiva de uma família de prósperos comerciantes.
No dia do seu casamento, parada a esmolar nas escadarias estava a cigana. Um lembrete desagradável de um destino nada acolhedor. Era próspero, estava com a mulher que amava, e tinha agora muitos amigos. Como poderia ser pobre novamente? Olhou uma vez mais para a cigana. Sua boca não emitia nenhum som, mas moviam-se dizendo: "en-di-vi-da-do".
Houve o casamento. A lua de mel, novas transações, a morte de sua querida avó. Ele precisou comprar outra casa para esconder a presença do brownie, que sacudia dia após dia as mãozinhas, ansioso por mais leite e aveia. É dito que se um humano comer qualquer comida das fadas ele nunca mais vai querer comer outra coisa na vida. O contrário também parecia verdade. E, ao colocar o prato de leite com aveia no canto da casa, o artesão viu pela primeira vez o brownie que sua avó dissera. Com pouco menos de um metro, roupas marrons e um gorro amarelado lá estava ele. Com alguns fios de palha ainda ao seu redor. O artesão ao vê-lo, lembrou-se de como era a bem pouco tempo atrás. Com olhos envergonhados esperando pelo pagamento, mal vestido e tímido. Não era da sua natureza ser ingrato, e pensou em recompensar o brownie, dando-lhe um prato extra. Mas em seguida raciocinou direito e pensou que isso poderia gerar ambição demesdida no pequeno.
Mais alguns meses se passaram e tudo transcorria bem. Sua esposa engravidara e o inverno chegara novamente. A dispensa estava cheia, a lareira crepitava, na sala reuniam-se os amigos. Oravam antes do jantar. Súbito, o artesão levantou-se da mesa, e foi até onde encontrava-se o brownie que ainda terminava a primeira cesta:

— Obrigado. Obrigado por tudo.

O brownie mostrou-lhe os dentes, fez uma careta e foi procurar outra casa em que pudesse ajudar. Como um passe de mágica, as coisas começaram a piorar. Ladrões tornaram a saquear as caravanas mercantes, sua esposa ficara gravemente doente após ter o seu filho, os remédios e o tratamento só podiam ser realizados na capital, todas suas economias eram sugadas pelos credores e seus amigos estavam sempre ocupados. Em dois anos, ele voltara a sua condição original. Lá estava a sua mulher doente, que lhe lembrava a avó, e seu filho, a quem tinha de dar leite e aveia sempre que podia pagar.
Desesperado, ele perambulou pela floresta próximo ao seu vilarejo até perder-se. Pois não se encontra uma fada sem estar perdido. E lá estava a rainha das fadas em pessoa, entretida com o vôo de uma libélula. Pareceu não notar o artesão, mas ele foi paciente e firme em seu pedido:

— Vossa alteza teria a bondade de me oferecer algo para passar o inverno? Tenho uma esposa doente e um filho pequeno que precisam de cuidados. - A rainha apenas sorriu.

Ao acordar no meio da floresta o artesão percebeu que havia adormecido, mas lembrava-se vividamente do sonho. Riu de sua boa sorte, e gritou dentro da floresta: "OBRIGADO!!". Voltava para casa, quando um cavaleiro envolto em uma capa escura passou a galope, e da própria montaria atirou-lhe uma flecha de cabo tão verde quanto um caule jovem. O artesão sangrava tanto que pensou que iria morrer. O cavaleiro armava outra flecha no cordame. Então o artesão notou algo incomum. Um dos cascos do cavalo era dourado. Só podia ser uma fada! Sem pensar duas vezes, ele tateou o ferimento, arrancou a flecha e disse:

— Obrigado!

Então o artesão levantou-se e cambaleou até o vilarejo. Tratou o ferimento e dormiu. Decidiu não buscar mais ajuda das fadas. No dia seguinte decidiu vender suas cestas e esteiras mais caro e não presentear mais ninguém.

* história presente no livro O Crânio e o Corvo de Leonel Caldela, Ed. Jambô. Modificada para fins pedagógicos (que no caso era contar a minha sobrinha.)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia da Mulher - Ano Cristão de 2010


Há alguns anos atrás, minha postura sobre o tão aclamado dia era de absoluta indignação. Não seria o dia da mulher uma discrepância, um pedido de desculpas ulterior  levando em consideração a aguerrida luta diária pela qual elas (enquanto ser humano) tem de passar todos os dias? Acho que minha grande mágoa com esse dia provinha justamente do fato de que, ainda assim, não era feriado. Portanto um absurdo. Sentia os dedos do comércio se fechando, tentando agarrar as cédulas nos bolsos daqueles perdulários em todos os níveis.
Também há o meu grande problema com datas. Felizmente a comoção é grande o suficiente para não passar despercibida tal data. Ou seja, ou você é daqueles que felicita ou daqueles que finge que nada está acontecendo. Pertencia recentemente ao segundo grupo. Pois era fácil ficar quieto e calado. Ao contrário do que possam vir a dizer todos aqueles que ainda pertecem ao primeiro grupo, deixo meu conselho. Continuem assim. Se são argumentos de ordem financeira e posições políticas de igualdade que os predem a irredutível conduta de não parabenizar uma mulher (por mais que esse dia pareça-se como todos os outros do ano), pois que continuem. Com toda a ferrugem dos bons modos é realmente difícil tomar alguma atitude.
Aprendi algo que está intimamente ligado às datas comemorativas e ao ser humano. Chama-se “cuidado”. Não se trata de merecimento ou de dinheiro, trata-se de cuidar. Ou você acha que todo homem se sente a vontade entrando em uma floricultura e andando por ai com o embrulho na rua? O mesmo vale para os aniversários. Alguém fez algum esforço relativamente titânico para nascer? Parabenizar porquê? Para demonstrar o zelo.
Trato o dia da mulher como uma oportunidade a mais para demonstrar o meu apreço e cuidado. É bem verdade que minha sinceridade é comumente confundida com grosseria, e minha economia de elogios me configura como alguém amargo. Mas vou tentando aos poucos mudar isso, em respeito a todo o cuidado e apreço que algumas mulheres dispensam a mim sem nada em troca.
As mulheres (na totalidade que a carga semântica oferece), desejo um bom resto de tarde.