O quilômetro 1167 é atrevessado por um pequeno riacho cujo os habitantes mais próximos sequer têm curiosidade onde começa ou termina. E há muitos, muitos anos atrás, quando o primeiro ser humano pensou em dar a sua primeira cagada, uma força sobrehumana se adiantou e concedeu o sopro da vida a dois seres. E o pior, lhes deu inteligência.
— Onde será que eles vão quando passam por aqui montados naquela coisa Bert?
— Eu diria que eles vão para a borda do mundo e caem no negrume do abismo. Ô.
— Será?
— Pode apostar que sim! Que aquele cachorro amarelo da fazenda mije em mim se não for isso. E tem mais, aquela “coisa” chama-se bicicleta.
— E eu sou um toco cheio de cupim. Bici... bi... Que nome estranho. Aposto que você está inventando isso só porque deu a sorte de vir rolando mais cedo do barranco pra estrada.
— O que tem haver uma coisa com a outra?
— Oras, se você desceu o barranco mais cedo até a estrada, é sinal de que viu mais deles do que nossos irmãos.
— Irmãos? Olhe ao seu redor. Ta todo mundo morto Rocha. Eu não chamaria nada nem ninguém aqui de irmão exceto você.
— Obrigado. Isso é consolador.
— Não precisa se ofender. O fato é que antes eles usavam mais cavalos por aqui. Dessa época você deve se lembrar. Até morreu um lá na frente se lembra?
— Claro que me lembro! O coitado ficou lá estirado que nem um animal olhando pra gente com aquele olhão todo branco apavorado, ai aquele baixinho puxou o gatilho e espalhou sangue pra tudo quanto é lado. E o barulhão que fez? Sonhei um tempão com aquele barulho.
— Poisé.
— Poisé.
— E então?
— O quê?
— Você ainda quer ser um toco cheio de cupim? Porque aquilo era uma bicicleta.
— Mentira. É sério?
— Pois pode acreditar.
— Aquilo vai contra a lógica Bert. Por que é que eles giram as pernas o tempo todo naquela coisa se o cavalo já faz tudo sozinho? Mexe as pernas, carrega o dono e larga merda na estrada?
— Vinha pensando nisso ultimamente. Provavelmente eles venham brigando há algum tempo.
— Quanto tempo?
— Não muito. Todo mundo briga sabe.
— Faz sentido. Aquele baixinho parecia bem nervoso quando gritava “Levanta CARAJO!”.
— Acho que o dia que você gritar assim comigo eu saio rolando daqui.
— Eu também sairia. Ainda mais com dois velhacos que nem a gente. Vai ficando difícil perdoar. Pior, vai ficando mais fácil se ofender.
— Você está no caminho certo Rocha. A gente perdoa, mas não esquece. E não passa um pouco e estamos nós a jogar tudo na cara um do outro igual aquela mulher da bicicleta.
— Bici.. Bicircle...
— Bicicleta, Rocha.
— Que seja! O que tinha a mulher?
— Não se lembra aquela vez que eles acenderam uma fogueira aqui perto umas 212 luas atrás?
— A mulher do GuGól Mapis você diz?
— Ela mesma. Lembra que ela estava falando sozinha com uma caixinha preta que chiava?
— Acho que sim.
— Pois então. Ela estava de bronca com a tal bicicleta. Ficava o tempo todo dizendo pra caixinha preta: “Furei o pneu nesse fim de mundo! Pera ai que vou consultar o Gugól Mapis”
— Ha ha ha.
— Que foi?
— Pneu. Que nome engraçado.
— É.
— É.
— E foi assim que ela brigou lá com a tal bicicleta xingando a caixinha preta e indo embora no dia seguinte.
— Sim, mas ela levou a bici... aquela coisa com ela.
— Aceite o que te digo: as bicicletas passam aqui com mais frequência do que gostaria de admitir. O problema é que você está sempre dormindo!
— Convenhamos que não há muito o que fazer por aqui Bert.
— Como não? Espiar os vizinhos oras!
— Só você mesmo. Me lembro de alguém aqui dizer que estava todo mundo morto agora a pouco.
— Metaforicamente eu quis dizer.
— Vou nem perguntar o que vem a ser o tal do “Meta-fornica-mente” em prol da nossa amizade.
— Faz bem. Por hora é melhor a gente se concentrar nas bicicletas.
— Porra mas tu é chato Bert. Tu parece uma pedra que não muda nunca de opinião.
— Rocha, eu sou uma pedra.
— É, mas dia desses você estava todo doutor dizendo que você era um aerolito. Custei muito pra aprender esse nome.
Depois de um longo silêncio de algumas luas...
— Vou dar uma mijada ali naquelas pedras João! – disse um dos ciclitas. — Já volto.
— Quer que eu seguro sua bike Bastita?
— Sim! – gritou.
Alguns minutos após a partida dos ciclitas...
— É Bert, tu não tem jeito. O nome é “bike batista”! Pelo menos você quase acertou sobre quem ia mijar em você.
— A cala a boca! Tinha certeza que era bicicleta! Escuta o que eu te digo, esse mundo tá acabando Rocha!
— Isso deve explicar porque todo mundo passa por aqui com essa pressa toda. Deve ser pra ver o final.
— É.
— É.
— E a gente vai ficar aqui? – perguntou Bert cortando o silêncio.
— E como iríamos? De “bike batista” não dá. De cavalo só o destino sabe quando um vai passar.
— Mas as montarias sempre vem com seus donos certo?
— Certo.
— Então a gente se enfia nas sapatos dos donos e viaja com eles.
— Bert...
— O quê?
— Tem certeza que o nome é sapatos?
— Absoluta! Esse não tem como errar! Eu quero que um boi cague em mim se não esse o nome!